Nos últimos anos, obras como "Geração Ansiosa", do psicólogo Jonathan Haidt, trouxeram para o centro do debate público uma evidência inquietante: o aumento abrupto de ansiedade, depressão, automutilação e ideação suicida entre adolescentes coincide com a massificação dos smartphones e das redes sociais.
A conclusão é clara: a infância foi profundamente alterada por plataformas desenhadas para maximizar atenção, comparação social e exposição permanente.
É neste enquadramento que surge a proposta legislativa para restringir o acesso de crianças e jovens às redes sociais. E é neste contexto que a extrema-direita portuguesa votou contra essa regulação.
Importa ser rigoroso: não está em causa “proibir a internet” ou censurar opiniões. Está em causa reconhecer que estas plataformas utilizam algoritmos que promovem conteúdos mais emocionais, mais polarizadores e mais extremos, porque são esses que retêm mais utilizadores. Quando os públicos são menores em fase de desenvolvimento cognitivo e emocional, a neutralidade é uma ilusão. Regular é proteger.
Por que vota contra a extrema-direita? Por três razões estratégicas de interesse partidário.
A primeira é a apropriação seletiva da “liberdade individual”. Invoca-se a liberdade para bloquear regulação, mas trata-se de uma liberdade assimétrica. Defende-se a ausência de limites às plataformas, não o direito das crianças a crescerem sem exposição precoce a violência simbólica, sexualização e desinformação. É a liberdade do mercado apresentada como defesa da autonomia juvenil.
A segunda razão é estrutural: a extrema-direita construiu parte relevante do seu crescimento nas redes sociais. Vive do vídeo curto, da indignação viral, da lógica “nós contra eles”. Os algoritmos que ampliam emoções fortes são os mesmos que ampliam discursos radicais. Restringir o acesso precoce e criar regras significa mexer na principal infraestrutura de expansão e mobilização desse espaço político.
A terceira razão — talvez a mais decisiva: é a utilização das redes como instrumento de condicionamento e radicalização precoce. Jovens em formação identitária são particularmente permeáveis a narrativas que oferecem pertença, inimigos claros e respostas simples. A exposição repetida a conteúdos xenófobos, misóginos ou autoritários cria hábitos mentais duradouros. Reduzir o acesso e exigir maior responsabilidade algorítmica diminui essa estratégia de moldar mentalidades ainda em formação.
Entretanto, as consequências acumulam-se: ansiedade, distúrbios de sono, cyberbullying, erosão da autoestima e exposição a conteúdos violentos. A infância não pode ser o campo de testes de modelos de negócio baseados na exploração da atenção.
No fim, a escolha é ética. Entre proteger crianças e adolescentes ou preservar um ecossistema digital que favorece polarização e recrutamento precoce, a extrema-direita portuguesa escolheu o segundo. Esta não é apenas uma divergência técnica — é um espelho de prioridades. Quando se opta por proteger a arquitetura da radicalização em vez de proteger crianças e jovens, escolhe-se o ruído em vez do cuidado, o cálculo político em vez da responsabilidade geracional.
A democracia mede-se também pela forma como cuida dos seus mais vulneráveis. Não se fragiliza por impor limites a algoritmos; fragiliza-se quando normaliza a ideia de que tudo é aceitável desde que renda cliques e votos.
Este é um compromisso civilizacional. E quem, perante evidência tão clara, prefere ficar do lado da radicalização precoce ficará inevitavelmente do lado errado da história.